DIA DO JORNALISTA

*Daniel Valentim Mansur*

Há sempre uma escolha envolvida em cada notícia a que temos acesso. Não importa se ela está num livro, num jornal, num podcast ou em qualquer uma das telas que organizam nossas vidas: na transformação de um fato em informação, alguém escolheu a palavra mais adequada, a luz mais reveladora, o timbre mais instigante ou o enquadramento mais apropriado. Surge uma questão: quem faz essas escolhas? Quem edita a realidade a que temos acesso? E, mais importante, o faz com que finalidade? Emancipação ou manipulação? Nas últimas décadas, a resposta para essa pergunta sofreu uma grande mudança: de “os jornalistas” para “qualquer um”. O que era a grande utopia da Comunicação, a liberdade de emissão – que diminuiria o poder dos grandes sistemas de Mídia –, acabou se tornando um pesadelo. Se todos somos jornalistas, não existe mais o jornalismo como profissão: a instância apuradora da sociedade, defensora do interesse público, formadora de sua opinião.

Como espécie, somos obcecados por histórias, por narrativa. Na verdade, é bem mais do que isso: elas constituem nosso modo de existência. Somos uma consciência aberta, sem motivo aparente, no meio de um universo de estímulos que é preciso conhecer. E por conhecer, queremos dizer: narrar e registrar. Dois dos principais artífices que observam a realidade e que em seguida nos propõem conhecimento sobre ela – seja ele científico ou poético – são os artistas e os jornalistas. É deles a função de conversar com o “grande público”. Um médico oncologista, por exemplo, escreve um artigo científico sobre uma nova descoberta em sua área. Mas esse texto só serve para que seus pares o leiam e o apliquem em seus respectivos consultórios. Um artista, por sua vez, produz um filme sobre um paciente cuja esperança foi renovada a partir daquela pesquisa, e nos emociona a todos. E um jornalista, finalmente, lerá a pesquisa do médico, conversará com outros profissionais e com seus pacientes e escreverá uma matéria sobre o assunto para que todos possamos entendê-la e compartilhá-la.

Trata-se de uma intermediação do saber; exatamente a instância que estamos perdendo diante de um cenário em que todos nós, com um dispositivo conectado à Grande Rede, podemos ocupar o mesmo espaço que antes era concedido a poucos. Todos opinam e todos publicam numa grande maré costurada por algoritmos. Parece ótimo, mas o que descobrimos foi que a democracia plena da informação não apenas não amplia sua qualidade – a manipulação continua tão ou mais forte que a emancipação –, como torna ainda mais importante sua curadoria, ou seja, seu controle – favor não confundir com censura. É diante deste cenário que nossa sociedade se aproxima do Dia do Jornalista, sete de abril, que marca a data do assassinato de Líbero Badaró, em 1830, criador de um jornal independente que defendia ideais republicanos contra a monarquia.

O jornalista não é um mero copista distribuindo B.O. de delegacia e atas econômicas e políticas dos poderes para a sociedade. Informação crua como mensagem é estéril. O trabalho de um jornalista; e nesse ponto podemos reafirmar a importância de sua formação – acadêmica ou prática –; é o de coletar essas informações e transformá-las num discurso contextualizado, colocá-las em perspectiva social e histórica, para que só então todos nós, socialmente, possamos discuti-las enquanto leitores/ espectadores. Isso exige responsabilidade, ética e técnica no tratamento da informação. Exige formação e experiência. E para que toda essa estrutura se mantenha em funcionamento, são necessários justamente os recursos financeiros cada vez mais escassos da Era Digital. Ninguém quer pagar por notícia. Esta é a grande discussão do jornalismo em sua data comemorativa: a sociedade está navegando, blasé e à deriva, neste mundo perigosamente confortável da desinformação. Mas está tão entretida com as novas possibilidades dessas conexões digitais que decidiu que pagar por notícia é uma grande besteira, porque está tudo ali, em abundância. Se um jornal cobra o acesso a uma reportagem, o tio do Zap tem o link de um blog gratuito sobre o mesmo assunto. Ou seja, no momento em que o jornalismo de verdade se torna mais importante e necessário, desvaloriza-se seu valor de mercado. Filosoficamente em alta; financeiramente em dívida. Nada de novo no front.

Daniel Valentim Mansur – daniel.valemansur@professores.fmf.edu.br. Doutor em Estudos Literários e professor do curso de Comunicação da Faculdade Martha Falcão Wyden, em Manaus-AM.

***Com informações da assessoria da faculdade Martha Falcão Wyden

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