Vítimas Invisíveis das Queimadas
Por Márcia Seixas de Castro Bader
Todos os anos, durante o período de estiagem, as imagens das queimadas na Amazônia ocupam os noticiários e despertam preocupação pela destruição da floresta. No entanto, por trás das árvores consumidas pelo fogo e da fumaça que encobre o horizonte, existe uma tragédia menos visível e, muitas vezes, esquecida: o sofrimento da fauna silvestre.
As queimadas não afetam apenas a vegetação. Elas desestruturam ecossistemas inteiros, eliminam fontes de alimento, destroem abrigos naturais e comprometem a sobrevivência de inúmeras espécies. Para os animais que habitam esses ambientes, o fogo representa muito mais do que uma ameaça imediata. Mesmo aqueles que conseguem escapar das chamas carregam sequelas físicas e fisiológicas capazes de comprometer sua sobrevivência por semanas ou meses.
Recentemente, a imagem de um tamanduá ferido em decorrência de um incêndio no município de Rio Preto da Eva sensibilizou a população. Diante de situações como essa, a reação mais comum é querer ajudar imediatamente. A compaixão nos leva a acreditar que o resgate rápido é sempre a melhor solução. Entretanto, a medicina de animais silvestres ensina que nem toda intervenção é sinônimo de benefício.
Ao longo da formação veterinária, aprendemos que cada espécie responde de maneira particular ao estresse. Em muitos casos, a captura, a contenção, o transporte e a permanência em cativeiro temporário podem desencadear alterações fisiológicas tão severas quanto as lesões provocadas pelo próprio incêndio. A chamada miopatia de captura é um exemplo marcante dessa realidade. Trata-se de uma síndrome associada ao estresse extremo, capaz de provocar degeneração muscular aguda e levar o animal à morte, mesmo quando as lesões iniciais parecem controladas.
Essa constatação nos obriga a refletir sobre um aspecto muitas vezes negligenciado: ajudar exige conhecimento. A boa intenção, isoladamente, nem sempre é suficiente. Em determinadas circunstâncias, uma intervenção precipitada pode agravar o quadro clínico e reduzir as chances de recuperação do animal.
Outro desafio frequentemente observado após grandes incêndios está relacionado aos indivíduos encontrados em estado avançado de desnutrição e desidratação. Para quem observa um animal magro e debilitado, a oferta imediata de alimento parece um gesto natural e necessário. Contudo, a experiência clínica demonstra que a recuperação nutricional exige cautela. Em situações como essa, a recuperação depende não da quantidade de alimento oferecida, mas da forma adequada como esse alimento é administrado.
Além dos danos diretamente associados às queimadas, existe um inimigo silencioso: a fumaça. Entre os diversos compostos liberados durante a combustão, o monóxido de carbono destaca-se pela elevada capacidade de comprometer a oxigenação dos tecidos. Muitos animais que aparentemente escapam das chamas acabam sucumbindo dias depois em decorrência das lesões causadas pela intoxicação respiratória.
As consequências dos incêndios também ultrapassam os limites das áreas queimadas. Durante a fuga, diversos animais percorrem grandes distâncias em busca de abrigo e recursos, atravessando rodovias, adentrando áreas urbanas ou tornando-se mais suscetíveis à predação. O incêndio, portanto, não termina quando as chamas são controladas. Seus efeitos persistem por longos períodos e afetam profundamente a dinâmica ecológica das populações silvestres.
Como médica veterinária e pesquisadora comprometida com a conservação da biodiversidade, observo que os incêndios florestais representam um dos maiores desafios contemporâneos para a proteção da fauna amazônica. A crescente frequência desses eventos exige não apenas ações emergenciais de resgate, mas também investimentos contínuos em prevenção, educação ambiental, pesquisa científica e fortalecimento das instituições responsáveis pela proteção da vida silvestre.
As marcas deixadas pelo fogo são facilmente identificadas na paisagem. Mais difícil é enxergar as perdas que permanecem ocultas em meio às cinzas: os animais feridos, deslocados, famintos ou incapazes de retornar ao seu ambiente natural. São essas as verdadeiras vítimas invisíveis das queimadas.
Diante desse cenário, a questão que se impõe não é apenas como salvar os animais atingidos pelos incêndios, mas como evitar que eles continuem enfrentando tragédias cada vez mais frequentes. Proteger a fauna silvestre significa proteger os ecossistemas que sustentam a vida. E essa responsabilidade pertence a todos.
Marcia Seixas de Castro Bader, Doutora em Biotecnologia (UFAM), Mestre em Biotecnologia e Produtos Naturais da Amazônia (UEA), Médica Veterinária e Coordenadora do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Martha Falcão Wyden.



