Infraestrutura urbana e saturação do solo podem potencializar transtornos causados por chuvas intensas
Especialistas falam sobre previsões para março e citam as principais causas das tragédias climáticas nas cidades
Fortes chuvas vêm castigando diversas regiões do país, e a combinação de condições climáticas e estruturais das cidades pode ser a explicação para o caos causado pelas tempestades que vêm ocorrendo desde o final de fevereiro. Sobre as previsões para este mês, o engenheiro ambiental Róbson Costa explica que, com a transição climática prevista para março, o cenário brasileiro será marcado pelo enfraquecimento do La Niña e o aquecimento do Oceano Pacífico, sinalizando o início de um novo El Niño. Segundo o especialista, essa mudança deve alterar o regime de ventos e a distribuição de umidade, resultando em um mês com temperaturas predominantemente acima da média histórica em quase todo o país, embora a chegada do outono, no próximo dia 20, traga um refresco gradual para as manhãs nas regiões Sul e Sudeste.
“As fortes chuvas de março, popularmente conhecidas como ‘águas de março’, são um fenômeno meteorológico típico no Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. A explicação principal está na atuação de um sistema climático específico, a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Esse fenômeno ocorre devido aos ventos alísios que sopram em direção ao Equador, criando instabilidades pelo encontro de massas de ar com diferentes características e carregadas de umidade, se deslocando ao continente e precipitando grandes volumes de chuva. Esse grande volume em março é um fato, mas a infraestrutura urbana e a saturação do solo, após um verão chuvoso, podem potencializar os transtornos quando as precipitações são intensas, exigindo atenção redobrada de Defesas Civis e da população”, salienta.
Março deve ter temporais isolados e intensos no Sudeste
Sobre às precipitações, o professor da Estácio afirma que o grande destaque fora do normal para este mês será nas regiões Norte e Nordeste, que devem enfrentar chuvas acima da média, o que é positivo para o armazenamento hídrico.
“Em contraste, o interior da Região Sul poderá registrar um déficit de chuvas, aumentando o risco de restrição para a agricultura local, enquanto o litoral sul permanece sob alerta para a formação de ciclones extratropicais que podem causar ressacas e ventos fortes. No Sudeste e Centro-Oeste, a característica marcante será a irregularidade. Embora o volume total de chuva possa ficar dentro do esperado, ele deve ocorrer na forma de temporais isolados e intensos de fim de tarde”, informa o Róbson.
Principais causas das tragédias
No final de fevereiro, o Brasil acompanhou como as fortes tempestades afetaram diversas cidades, especialmente Juiz de Fora (MG), que ainda vive os impactos de uma tragédia climática. A engenheira civil, Sâmya Gomes Veloso, explica que a constância e o alto volume de chuvas nesta época provocam o encharcamento de solo e, aliados a áreas urbanas impermeáveis, são fatores que colaboraram para a criação do cenário de caos nas cidades.
“Quando o solo urbano torna-se amplamente impermeável – pela construção ruas pavimentadas, calçadas, estacionamentos e edificações -, a chuva que antes se infiltrava no solo passa a escoar na superfície. Esse efeito é agravado quando margens de rios, várzeas e áreas naturais de retenção são ocupadas, pois o espaço que antes armazenava e retardava a água é reduzido ou eliminado, impedindo o percurso natural dos córregos e das cheias. Nessas condições, toda a água da chuva precisa ser recebida pelo sistema de águas pluviais urbano que é constituído por galerias, bueiros, condutos, bacias e reservatórios”.
Segundo a professora do curso de Engenharia Civil da Estácio, quando o sistema de águas pluviais é submetido a vazões muito maiores e mais rápidas do que em áreas permeáveis, frequentemente acarreta uma sobrecarga e retorno de água.
“Além disso, entupimentos por lixo, sedimentos e vegetação reduzem rapidamente a capacidade hidráulica de bueiros, galerias e bocas de lobo, transformando chuvas pontuais em alagamentos locais. Por fim, ainda existe o fato de o sistema trabalhar com projetos subdimensionados ou obsoletos, somados a obras e intervenções ao longo dos canais e margens que criam gargalos, tornando o escoamento irregular e concentrado em pontos críticos”, destaca.
Formas de minimizar os estragos
Para Sâmya, várias direções podem ser seguidas, tanto para a prevenção como para que os estragos pelas épocas de chuvas sejam minimizados.
“Sob o viés das medidas de engenharia, as administrações públicas das cidades podem priorizar a redução dos picos de vazão e a recuperação da infiltração perdida pela impermeabilização do solo. Isso inclui a implantação de bacias de detenção e retenção, reservatórios urbanos e subterrâneos dimensionados com margens de segurança para eventos extremos, galerias e coletores com capacidade atualizada, além de sumidouros e poços de infiltração. Podem também pensar em soluções verdes, feitas em menor escala, como a renaturalização de córregos, criação de zonas úmidas urbanas, parques inundáveis e faixas verdes que atuam como esponjas, retardando e armazenando água. Temos ainda os pavimentos permeáveis, jardins de chuva e arborização localizada, que reduzem o volume e a velocidade do escoamento”.
A engenheira civil considera ainda indispensável o planejamento territorial no intuito de proibir ou restringir ocupações em várzeas, margens e corredores de inundação e integrar o tema ao plano diretor e ao uso do solo.
“Vale mencionar ainda a manutenção preventiva contínua, limpeza programada de bueiros, galerias e cursos d’água e gestão eficiente de resíduos sólidos pela população e pela administração pública, que são medidas valiosas, pois evitam entupimentos que transformam chuvas medianas em inundações. E sob o viés populacional, as práticas de descarte correto de lixo, entulho e outros é indispensável para manter a
limpeza de bueiros, galerias e cursos d’água. Tudo que é descartado na rua, de maneira incorreta, acaba por parar dentro do sistema e o entupimento é instantâneo”, enfatiza.
Cidades precisam se adaptar ao inesperado
As mudanças climáticas têm exigido das administrações das cidades aprimoramentos no planejamento e melhorias nas estruturas de drenagem. Mas como se adaptar a essa nova realidade de se preparar para o inesperado frente às mudanças climáticas?
“As mudanças climáticas têm aumentado a frequência e a intensidade de chuvas extremas, o que torna insuficiente muitos dos critérios de planejamento baseados apenas no passado. De forma geral, é necessário projetar riscos: usar cenários climáticos e projeções locais para revisar as curvas intensidade-duração-frequência (IDF) das chuvas e aplicar fatores de segurança nas vazões de projeto. Já no campo da operação e gestão, é fundamental criar sistemas de monitoramento e tomada de decisão em tempo real: redes de pluviômetros, estações hidrométricas, telemetria e modelos operacionais que alimentem centros de comando e sistemas de alerta precoce. A manutenção ganha papel central – limpeza sistemática de bocas de lobo, galerias e cursos d’água -, assim como planos de contingência, protocolos de evacuação e comunicação clara com a população. As administrações públicas devem integrar autoridades municipais, operadoras de serviços e comunidade, com fluxos de financiamento dedicados à operação, manutenção e atualização tecnológica”, finaliza Sâmya.
Com informações da assessoria



